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O desafio do luto: “é hora de virar caçador de sentimentos”

Carolline Silva Borges
Psicóloga Clínica e Hospitalar

O conceito de luto envolve todos os processos inerentes às perdas: término de relações amorosas, perda de emprego, perdas de animais de estimação, perda de membro ou parte do nosso corpo (por acidente ou doença). Em todas essas situações experienciamos o luto. No entanto, a morte de alguém próximo parece ser a mais dolorosa das perdas vivenciadas por nós. E tão pouco falamos sobre ela…

A morte é um tema evitado e muitas vezes negado por nossa sociedade. Segundo Elizabeth Kübler-Ross (1975), temos uma adoração pela juventude e somos orientados para o progresso.

E não há nada de errado ou inadequado em sermos orientados ao progresso, às alegrias, conquistas e à busca pelos afetos. Aliás, precisamos sim manter o foco aos aspectos positivos da vida, que nos engrandecem e nos mantém gratos por nossa existência. O que não podemos é ignorar que os processos de perda e, mais especificamente, o processo de morte também fazem parte desse nosso existir.

Falar sobre morte é uma tarefa árdua. Afinal, mesmo que a morte seja uma certeza absoluta e que todos nós tenhamos consciência de nossa finitude, em geral, nós tendemos a evitar pensar ou falar sobre o assunto (Kübler-Ross, 2008, p. 6).

Esse assunto nos desperta tantas emoções, comportamentos, pensamentos, crenças e rituais transparecendo a importância que se tem de falar e reorganizar os conceitos que adquirimos sobre o processo de morte ao longo da nossa vida. Já pensou sobre o tamanho de nossa mobilização em torno do falecimento das pessoas queridas? E ainda assim temos tantas dificuldades em trazer a tona tudo que a morte nos desperta e a possibilidade de entendimento desse tão temido tabu cultural.

Percebemos que não falamos sobre morte simplesmente por escolha. Ao longo da produção cultural na qual estamos inseridos, fomos nos distanciando desse assunto. Embora faça parte da vida, por milhares de anos mantivemos o foco nos assuntos que antecedem à morte. Aprendemos assim. Foi passado de geração em geração que o assunto era proibido e que poderia “trazer má sorte”. Aliás, quando é que nos sentimos à vontade para falar sobre quaisquer de nossas perdas? Somos mal vistos e até punidos socialmente quando perdemos… não seria diferente então, que nos sentíssemos temerosos pelo julgamento se resolvêssemos falar sobre a nossa mais dolorosa perda.

Temos a tendência, por defesa natural, a não abordar temas que nos trazem desconfortos. Não é necessário que esse assunto faça parte das nossas conversas diárias. Não é isso! Mas se algo tão presente na nossa vida ainda nos traz tamanho desconforto é porque realmente precisamos repensar se não se faz necessário compreendermos o motivo.

Esse espaço foi criado para que possamos juntos remodelar nossa cultura e abrir espaço para falarmos de sentimentos e de emoções. Aqui teremos tempo e escuta livres de pre-conceitos, para trazer tudo que nos impressiona e nos faz deixar as nossas perdas tão presentes, ainda tão distantes da nossa vida.

Patricia Gebrim em seu livro Palavra de Criança, cuja proposta é resgatar a nossa criança interior, nos lembra que uma das lições dessa nossa criança é a importância do resgate dos nossos sentimentos:

“É HORA DE VIRAR CAÇADOR DE SENTIMENTOS! Os sentimentos são como bichinhos assustados em uma floresta, que fogem toda vez que fazemos barulho demais. Eles fogem do barulho dos nossos pensamentos, fogem das críticas, dos certos e errados, dos julgamentos. Para caçar sentimentos, você tem de aprender a chegar de mansinho na floresta, a olhar de verdade para dentro, sem medo do que vai encontrar. Tem de ser amoroso com você mesmo, se tornar mais atento, tem de aprender a pedir conselhos ao senhor do tambor: o coração”.

Espero que o senhor do tambor nos guie nesse projeto tão importante, porque falar sobre morte é também ser grato por tudo que a antecede: A VIDA!





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